quarta-feira, 25 de julho de 2007

POEMA PARA UMA CRISTALEIRA

POEMA PARA UMA CRISTALEIRA


De frente para as portinhas fechadas
a menina e o impasse em fechadura delicada
Os espelhos ao fundo alongam os sonhos
os brilhos
O mistério das taças cristalinas
borda a imaginação
evoca cenas de lugares longínquos
As xicarazinhas principescas em ciranda
envolvem uma garrafa de vinho Guaracy
Conjuntos incompletos
quebrados nas cenas temporais
A bonequinha de luxo toma conta
dos fantasmas do corredor
Dois copos altos no porta-copos de prata
conservam marcas do beijo mais desejado
Imóvel a cristaleira assiste às cenas
familiares
testemunha de segredos à meia-luz
Seus olhos de espelho espiam através
das ramagens
o relógio marcando a meia-noite
o presépio
o menino
as vaquinhas
Inundam-se de luz refletindo a estrela-guia
Um porta-retrato solene jura eternidade
Um elefante cheio de pedrinhas vermelhas
carrega os sonhos para o Oriente
O Sol
A Lua
O Verão
O Inverno
A Primavera
O Outono
A vida passa pela imóvel cristaleira

Aracaju, 12/05/2004

Sem Título

Eu me alimento
de cigarros
de fumaça
de palavras
de instantes perdidos
levo uma vida levada
falando do tudo
do nada
do vagabundo e da namorada
quando a fumaça se esvai
eu fico a ver navios.

Aracaju, 197?

MAR

MAR


Mar mar mar
balança meu sono
meu sonho
balança o luar

mar mar mar
não me acorde
murmure baixinho
quero sonhar
brincar
de amar

mar mar mar
que já vai
que já vem
que já vai
que já vem...

Aracaju, 23/05/1989

UM PRESENTE PARA O POETA

UM PRESENTE PARA O POETA
(Dedicado a Pablo Neruda)


Como pode alguém amar tanto?
De tal forma a exalar
emanar
espargir
gotejar
lançar
contaminar
angustiar
emocionar
iluminar
amanhecer e anoitecer
eternizar
Neruda
Pablo Neruda

Aracaju, 10/05/2004

Carlos Ayres

Carlos Ayres,
quem mandou você achar
na rua
por aí
os versos que eu deixei cair?

Aracaju, 26/11/2003

A BOLSA NA PAREDE

A BOLSA NA PAREDE
(Dedicado a Carlos Drummond de Andrade)


Olho a bolsa pendurada na parede
dentro dela um pedaço de mim
um pedaço de você
um endereço
uma escova de cabelos
um batom que não uso
e um poema de Drummond que abuso

Aracaju, 197?

SEMENTE

SEMENTE


Eu planto a semente das palavras
no solo fértil da língua
Eu rego as palavras
Com as águas da imaginação

Eu me sento para assistir a semente brotar
carregada de significado

Eu admiro o terreno
pleno de frases frutificadas
de pensamentos em flor
de idéias em fruto
de versos verdes e de versos amadurecidos
alguns caem nesta folha
e adubam o solo da língua
sedento de multiplicação

Eu transo com a língua
E ela me plenifica
de orgasmos múltiplos
que me fecundam para a época vindoura
do plantio

MATRÍCULA

MATRÍCULA
(Dedicado à Academia Sergipana de Letras)


Vou matricular minha poesia na Academia
para fazer alongamento
prevenir a celulite

pretendo aplicar luzes
nos cabelos da poesia
maquiar os versos com um batom café-au-lait
presentear-lhe com um par de meias finas
de preferência pretas
um sutiã meia-taça
para dar-lhe volúpia
um vestido mole de seda pura
aberto do lado direito
aderente às coxas
uma gargantilha de brilhantes
um par de sapatos de princesa
ensino a poesia a andar elegante
assim como Gisele
e coloco na sua fina mão
uma taça de cristal
de vinho tinto
suave

O SONO DA POESIA

O SONO DA POESIA


A poesia está dormindo
Bela adormecida no verde que se espalha
sobre o relevo
nas ondas do terreno
no vale
nos montes
nos bois pastando
no córrego
numa casa de marimbondos
dorme neném

A poesia dorme
nas moitas
nas sombras que se avolumam
por baixo das copas das mangueiras
na aragem
no vento
no rio quase seco
nos raios de sol que iluminam
os golfos aquáticos

A poesia dorme
nas cinzas do fogão de um casebre
nas cancelas
nas santacruzes engalanadas
com fitas e fitilhos
nos cabelos revoltos
da menina junto à cerca
dorme neném

A poesia descansa
sobre os patos
sobre os lagos
no regaço da terra
e sobre o presságio das estradas
dorme neném

A poesia dorme serena
nos olhos da morena

A poesia dorme em paz
nos braços do rapaz

A poesia dorme sossegada
nos lábios da amada

Dorme poesia
a gente te embala

Aracaju, 06/06/2004













A POESIA VOLTOU


It comes back
com a força do sofrimento
nos momentos de doce
sweetíssima solidão
a vida vale até quarenta

PRAZO DE VALIDADE VENCIDO

Estou no piloto automático
Seja o que Deus quiser
ou não quiser

Sei lá
quem sabe é Ele

Ele sabe
Ele quer
Ele pode

Manda quem pode
Obedece quem tem Juízo Final

Aracaju, 27/05/1999

HOMENAGEM A GREGÓRIO DE MATOS GUERRA E A GIL VICENTE

HOMENAGEM A GREGÓRIO DE MATOS GUERRA E A GIL VICENTE
– Tânia Maria da C. Meneses Silva –


Morto serás bem bonitinho
Quase estou vendo
tua pose funérea
teu branco colarinho esconde
tua doença venérea

(– Quão bonitinho ele morto!)
Nada se encontra de torto
tua cara de santo
tua boca de canto a canto
para de tornares rei
falta apenas o manto
Considerado
Respeitado
Direito
Todo escovado

(– Quão bonitinho ele morto!)
(Vai viajar, o aborto)
Graças a tanatologia,
Parecias um sapo,
Agora, uma cotia.
Arrancadas as tripas
pouco tu hás de feder;
arrodeadas de flores
as bochechas de bebê

(– Quão lindinho ele morto!)
Que belo enterro, vais ver
Pompa e circunstância
Discurso, adulação
– Deixa pra lá, ele não escuta
Acabou-se a audição

Os olhos bem fechadinhos
Os dedos encruzadinhos
A gravata, uma perfeição
(– Quão bonitinho ele morto!)
Ali dentro do caixão

Não precisas mais dos óculos
Tu não vais ler
Tampouco escrever
(– Que beleza de defunto, se pobre eras presunto...)


Pra não correr risco
A esposa remove o cisco
Pra que o esposo veja Deus
– Tão bom! Tão puro! Inocente, justo...
Diferente dos ateus
Os “invejosos” não dispensam,
Cochichos beiram o túmulo:
Sujeito malandro, disfarçado
Tal piedade é o cúmulo.
Merecias tanto tapa,
Uma cusparada na cara;
Como ainda fosse pouco,
enfiava-lhe uma vara.

Não se lembra o disfarçado
do tempo em que andava a pé
Casou-se com moça de família tradicional e rica,
Não quis ser pé-de-chulé
Teve sorte o desgramado,
Conseguiu se graduar
sentado nas carteiras
da faculdade particular

A ajuda do sogro
foi por demais excelente,
O pobretão desvalido
se entonou,
virou gente

Desconheceu os parentes,
virou as costas a cada um
Se lhe perguntassem
É seu primo?
Nunca vi esse mutum
Assim se viu num posto
Começou a ordenar,
sem perdão pra seu ninguém
se danou a canetar
era lei para aqui, parágrafo para acolá
Agora eis aí o cara de tacho
O destino não dispensa
(– Quão engraçadinho ele morto!)
Bailam as moscas em sua venta,
vão com ele para a cova,
lugar de coisa nojenta.
Uma vez lá dentro esteja,
fechado, cimentado, marmoreado,
sai a família na intriga
De quem é a mansão?
a casa de praia?
as ações?
a poupança
(Há motivos demais pra briga)

Do outro lado da vida
onde todo mundo é ninguém
A barca do céu já foi,
A outra só uma vaga tem.
Assim que chegou no Inferno
O diabo arrenegou
– Sujeito da cara sebenta,
Quem para cá te chamou?
Metido até mesmo morto
nem sequer se abalou:
– Aqui mando eu,
tu és o meu assessor

Aracaju, 02 de fevereiro de 2007